Restauração psicológica e espiritualA terra, as plantas, os animais, as pessoas e as máquinas têm necessidade de repouso; mais do que repouso, alguns precisam de restauração das condições de trabalho, outros do sentido da vida porque, afinal, nada pode manter-se num ritmo de permanente atividade. A terra, em vista de uma maior e melhor produtividade, deve ter um “ano sabático”, como sabiamente já prescreviam a experiência dos agricultores e a legislação mosaica. As plantas, além de elementos imprescindíveis, como sol, água, ar, precisam de cuidados especiais, sob pena de não terem o mesmo rendimento. Aqueles animais que estão submetidos a um regime de trabalho, mesmo proporcional à sua condição, também devem ter o adequado tempo de repouso porque, do contrário, “a sociedade de proteção aos animais” vem em sua defesa. A voz da natureza, o bom senso e a legislação das nações dizem, clara e explicitamente, que o repouso está incorporado ao seu próprio ser, em vista de sua restauração. A formação de cada pessoa e os cuidados das instituições a que estão ligadas, por vínculos trabalhistas, não podem desconsiderar essa exigência de repouso. Portanto, o repouso diário, semanal e anual deve ser respeitado, por se tratar de uma exigência do organismo de cada pessoa e sua transgressão, sabidamente, acarreta consequências prejudiciais. Nem mesmo os seres inanimados dispensam o repouso, por isso, sua manutenção exige revisões e restaurações, diante dos desgastes provocados pelo tempo e pelo uso.
Em relação às pessoas, individual ou coletivamente consideradas, uma outra ordem de cuidados também deve ser contemplada: a dimensão psicológica e espiritual, uma vez que sua vida não comporta automatismos, mas supõe ações programadas; nesse sentido, é imprescindível que as pessoas cuidem, de maneira apropriada, da dimensão psicológica, porque estão submetidas a um estado de stress, ocasional ou permanente, tendo necessidade de administrar situações complexas. Problemas psicológicos atingem a todos, porém o seu enfrentamento nem sempre se dá nas mesmas condições; os pobres conhecem maiores dificuldades, frente a esses problemas, seja pela falta de compreensão de sua natureza, seja pela falta de recursos financeiros; muitos deles experimentam o peso da depressão e tomam remédio controlado. A sua restauração supõe uma terapia que, via de regra, não está ao alcance da maioria da população. Recentes medidas da Agência Nacional de Saúde obrigaram os Planos de Saúde a darem cobertura ao tratamento psicológico.
As pessoas precisam dedicar também a merecida atenção ao aspecto espiritual porque é um elemento constitutivo de sua vida. Essa é também uma responsabilidade das instituições a que servem. A Igreja é uma destas instituições que deve zelar pela vida espiritual de seus membros. As dioceses, ordens, congregações e casas de formação não podem descuidar desse encargo, em relação aos seus membros. Com efeito, a sua qualidade de vida e a natureza de seus serviços estão diretamente relacionadas com o nível da assistência espiritual que lhes é dispensado. Em muitos casos, trata-se de aprofundamento e aprimoramento, mas, em outras situações, é questão de restauração do sentido da vida e da razão de ser do ministério. A desatenção a essa dimensão, por parte da pessoa e/ou de sua instituição, pode ter consequências muito prejudiciais. O retiro espiritual é uma ferramenta inerente ao processo de formação e ao exercício do ministério sacerdotal. Por certo, muitos problemas que afloram na vida de presbíteros, atualmente, com graves desvios de conduta e grande repercussão na comunidade, devem-se também ao descaso com sua vida espiritual; para a superação desses problemas, não podem faltar a revisão de vida e das atividades, a oração e, especialmente, a Eucaristia. A restauração ministerial, necessariamente, passa por uma maior atenção à dimensão espiritual de sua vida.
Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE