Justiça e amorAparentemente, pode parecer que justiça e amor se excluem. Na verdade, isso não acontece. A melhor evidência disso é quando a virtude da justiça e o dom do amor são contemplados com o olhar de Deus. Nele, justiça e amor se completam, nunca se opõem. Porque é amor, Deus também é justiça. A Revelação apresenta Deus que sempre faz justiça porque ama. Na Antiga Aliança, dentre os muitos exemplos, tome-se a situação do primeiro casal da humanidade: Deus o criou por amor, mas, em razão do pecado cometido, por justiça, “o expulsou do jardim do Éden, para que cultivasse o solo do qual fora tirado.” (Gn 3,23) Também por amor, não o abandonou à própria sorte. Jesus, na Nova Aliança, em muitos casos, revelou a natureza de sua ação evangelizadora que se diferenciava, qualitativamente, da prática de fariseus e doutores da lei para quem prevalecia a fria aplicação da letra da lei, diante de experiências humanas onde se deveria revelar a face do amor e da misericórdia. O caso da mulher apanhada em adultério é um dos exemplos mais expressivos da justiça, vista e tratada por seus denunciadores, mestres da lei e fariseus, e do amor testemunhado por Jesus. (cf Jo 8,1-11) Eles consideram o fato e aplicaram o dispositivo da lei segundo o qual a mulher deveria ser apedrejada; Jesus, demonstrando amor, levou em consideração a criatura que deveria ser resgatada de seu pecado. Não compactuou com o estado de pecado da mulher, não a condenou friamente e, sobretudo, assegurou-lhe um futuro promissor: “Vai, e de agora em diante não peques mais.” (Jo 8,11) Tanto nesse como em outros exemplos, “A mera justiça fecha as possibilidades da pessoa, ao passo que o amor, a misericórdia, lhe abrem novos horizontes, a fazem reviver.”
A esse respeito, “Dizia um autor francês não cristão: A justiça considera uma pessoa pelo seu passado, ao passo que o amor a considera pelo seu futuro. E manifestava sua admiração por essa atitude entre os cristãos.” Em se tratando de julgamentos humanos, necessariamente, palavras e atitudes do passado e do presente de uma pessoa devem ser consideradas, visando-se a aplicação da justiça. Por conseguinte, o passado tem seu lugar na vida de qualquer pessoa e, por isso, contém elementos que devem ser contemplados no seu julgamento, diante de indícios ou da evidência de crimes cometidos, exatamente quando se busca a justiça. Quando a pessoa se torna protagonista de atos que exigem a aplicação de penalidades, num julgamento legítimo, observado sempre o direito de defesa, a justiça está preservada.
Ninguém haverá de entender, todavia, que a aplicação da justiça seja oposta à natureza do amor. De fato, o que é incompatível com o amor é a injustiça, como São Paulo, iluminado pela Nova Aliança, ensina na Carta aos coríntios, com muita propriedade: “o amor é paciente; é benfazejo; (...) não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade.” (1Cor 13,4.6) O amor vai além daquela justiça que enxerga somente o passado na vida do ser humano, precisamente, porque lhe abre novos horizontes. Em Deus, o amor chega ao ponto de desconsiderar o passado de pecado do ímpio, uma vez que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. (cf Ez 18, 21-23)
No mundo das relações humanas, começando pelas familiares, por serem as mais próximas, quando falta o amor, é muito comum prevalecer um olhar crítico e uma leitura mesquinha sobre o passado das pessoas cujo efeito é um crescente distanciamento que deixa sequelas profundas na convivência. Somente pessoas amadurecidas, espiritualmente, e adultas, psicologicamente, são capazes de olhar mais o futuro do que o passado de quem, no presente, já enxerga um novo horizonte na sua vida e na sua convivência.Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE