Cotidianidade e excepcionalidadeNo calendário humano, registram-se situações comuns e acontecimentos extraordinários; existem problemas gerais e casos especiais; vive-se a cotidianidade e se conhece a excepcionalidade. O lugar comum e a anormalidade ocorrem na própria natureza e estão registrados na vida de pessoas, de grupos e de instituições. Como não enxergar nessa ótica, as adversidades na vida de pessoas, famílias e populações, com dolorosas consequências, em decorrência da excepcional queda pluviométrica no sudeste e sul do Brasil e do recente terremoto no Haiti?
Contemplando-se a natureza, chover é uma coisa normal, porém está sendo anormal a sua intensidade, em determinado período, em todos os continentes; é normal que as águas de um rio invadam planícies e baixios, mas não na extensão que se verifica, atualmente; com o cair das chuvas, é previsível a queda de barreiras, em áreas acidentadas, porém, em razão do local e das precárias condições das construções, os pobres, comumente, estão mais expostos ao perigo dos desabamentos. O frio e a neve compõem o cenário dos polos norte e sul, no entanto a intensidade do frio e a nevasca, que hoje castigam muitos países, chegam a um patamar excepcional; sempre houve terremotos no mundo, mas não nas escalas hoje registradas, como no Haiti.
Em se tratando de pessoas e grupos, acontece a mesma coisa: o lugar comum e a realidade extraordinária estão contidos na sua crônica diária. Exemplos dos mais variados matizes comprovam essa realidade e se torna dispensável explicitá-los, uma vez que fazem parte de sua história de vida e estão ante os olhos de todos. Naturalmente, tudo que envolve o ser humano precisa ser lido numa perspectiva diferente, por não ser um autômato que “obedece ao padrão sem pensar.” Ao criar o homem e a mulher, Deus deu-lhes a capacidade de criar coisas novas, administrar situações variáveis e complexas, apontar os rumos da história, abrir caminhos, planejar e executar os seus próprios projetos. Se, de um lado, o ser humano não é um autômato, agindo às cegas, de outro, não é onipotente e, dessa forma, tem uma capacidade limitada de agir que, às vezes, é contraditória, como testemunha São Paulo, referindo-se à sua experiência: “De fato, não entendo o que faço, pois não faço o que quero, mas o que detesto. (...) Pois querer o bem está ao meu alcance, não, porém realizá-lo. Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero.” (Rm 7,15.19). Muitas pessoas conhecem essa condição de conflito interior, em relação à sua vocação e à realização de seus planos; na verdade, nenhuma vocação humana prescinde da parceria com os outros, da convivência com familiares e da oração dos irmãos. Os grupos, qualquer que seja a sua tipologia, constituem-se a partir da identificação de seus membros com a causa que os reúne e os aproxima; também desenvolvem sua atividade no dia a dia de sua prática; porém, muitas vezes, conflitos internos ou problemas externos desestruturam os grupos; os seus membros devem estar preparados para viver o cotidiano, bem como, igualmente, devem estar atentos a situações excepcionais que podem comprometer a sua unidade; isso é facilmente identificado em grupos do mundo político e eclesial.
As instituições, da mesma forma, conhecem a dinâmica da vida e da história; por viverem o cotidiano, atingem a longevidade, por experimentarem situações excepcionais, podem crescer ou entrar em crise de sobrevivência. A Igreja também se rege por essa dinâmica; no entanto, muitos de seus conflitos, sempre gerados pelas pessoas, são superados, por ser ela assistida pelo Espírito Santo. Inquestionavelmente, as experiências do cotidiano e as situações excepcionais deixam muitas marcas na vida e na história das pessoas, dos grupos e das instituições e, por isso, devem devidamente consideradas.
Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE