Encontros transformadores

Há momentos na vida humana que são decisivos, em relação à determinação de seus rumos; há experiências que são marcantes, em termos de definição profissional, em vista de um projeto de vida; há acontecimentos que são norteadores, em face de opções que se apresentam na estrada vocacional; enfim, há encontros transformadores na história das pessoas, levando-se em consideração circunstância, contexto, lugar, personagens e outros elementos que têm uma eloquência especial na sua vida. Há encontros fortuitos e intencionais que, por sua natureza afetiva, espiritual e ideológica, têm um poder transformador, como comprova a história. Na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, há inúmeros exemplos de encontros transformadores. Isso aconteceu, por exemplo, quando Jesus chamou os Apóstolos, haja vista o seu encontro com Pedro, Tiago e João, às margens do Lago de Genesaré, conforme a narração de Lucas; após uma noite de trabalho infrutífero, Jesus ordena que lancem as redes para a pesca; diante da grande quantidade de peixes, ficaram espantados. Ante o chamado de Jesus para segui-lo, “Eles levaram o barco para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus.” (Lc 5,11) O encontro de Jesus com Mateus, cobrador de impostos que estava desempenhando seu ofício no posto fiscal, teve a mesma força: “Segue-me”, disse-lhe Jesus. “Deixando tudo, levantou-se e seguiu-o.” (Mt 9,9) Zaqueu, outro publicano, ficou profundamente tocado por Jesus; queria vê-lo, mas sua pequena estatura o impedia, por isso, subiu numa árvore e Jesus, ao passar, olhou-o e se ofereceu para hospedar-se em sua casa. Desse encontro, deu-se a conversão de Zaqueu: dispôs-se a repartir a metade dos seus bens com os pobres e, diante de espertezas que são muito comuns no trabalho dos fiscais, prometeu restituir a parte que desviou dos recursos públicos. (cf. Lc 19,1-10) Todavia, nem todas as pessoas que encontraram Jesus mudaram de vida; o jovem rico, ao ouvir o convite de Jesus, “foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens.” (Mt 19, 22) Por certo, um dos casos mais emblemáticos, na era apostólica, foi o encontro de Jesus com Saulo, no contexto da missão que começara, na direção de “todas as nações”. Saulo encontra Jesus “perto de Damasco”, aonde ia para perseguir os primeiros discípulos. “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,5) Portanto, Jesus se sentia perseguido na pessoa de cada um dos discípulos e discípulas. Embora usualmente se fale da “conversão de Paulo” e essa é a linguagem da memória litúrgica desse acontecimento no dia 25 de janeiro, a rigor, não se trata de uma conversão porque o Antigo e o Novo Testamento não se excluem, completam-se. Na Antiga Aliança, o Messias estava prometido; na Nova Aliança Ele assume a condição humana. Portanto, a crença de Saulo na Revelação da Antiga Aliança adquire o sentido de plenitude com sua adesão à Nova Aliança. Dessa maneira, Saulo torna-se cidadão da Nova Aliança, a partir de seu encontro com Jesus; um encontro tão determinante que provocou uma mudança profunda em sua vida, em sua vocação e em sua missão, começando pela mudança do nome. Paulo, de perseguidor, se torna um ardoroso seguidor e um corajoso missionário.


Na vida de qualquer pessoa, também registram-se encontros transformadores que têm uma significação especial porque abriram horizontes ou refizeram caminhos; é importante que cada os identifique e os tenha na conta de uma boa semente que continua crescendo e produzindo frutos de qualidade. Todavia, há encontros falaciosos porque não levam a pessoa a unir-se a Deus, a distanciam de sua família, não lhe proporcionam uma autêntica realização e não contribuem para o bem da sociedade.

Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE