Sabedoria de Jesus

Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tinha a sabedoria divina; porém, ao humanizar-se, não nasceu com ciência infusa que consiste no “conhecimento das verdades religiosas, morais e físicas necessárias à instrução de si mesmo e de seus filhos. Esta ciência é chamada infusa porque não fora adquirida pelo estudo, mas infundida diretamente por Deus na alma, por uma benevolência especial do Criador.” Assim sendo, Jesus adquiriu a sabedoria humana, conforme as condições a que estão submetidas todas as pessoas e, igualmente, com a capacidade de desenvolvimento, como acontece com qualquer criança, jovem e adulto, em qualquer tempo e em qualquer parte do mundo. Como muitas pessoas, tinha um agudo espírito de observação, em torno de coisas óbvias e de situações comuns, em relação a comportamentos individuais e a práticas coletivas. Daí extraia mensagens profundas para as multidões e proveitosos ensinamentos para seus discípulos, como, abundantemente, no-lo demonstram as páginas do Evangelho. Com efeito, Jesus considerava a face da natureza e observava o comportamento habitual de pessoas e da sociedade porque, para ele e para todos, a vida é uma grande escola que encerra preciosas lições. O modo de Jesus ensinar é, pedagogicamente, prodigioso; a simplicidade das comparações, nas parábolas, encobria a profundidade de verdades que eram facilmente compreendidas por seus ouvintes.


Na leitura das “parábolas do Reino”, no Capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, qualquer pessoa identifica, de imediato, o conhecimento geral de Jesus, sua sabedoria popular e seu espírito de observação, a respeito da realidade cotidiana. Porventura, desconheciam seus ouvintes que sementes lançadas “à beira do caminho”, “em terreno cheio de pedras” e “no meio de espinhos” estavam fadadas à perda total ou parcial, diferentemente, daquelas que “caíram em terra boa” que tinham uma produtividade esperada, de cem, sessenta e trinta? Ao falar de sementes, estava se referindo à Palavra que estava chegando aos seus ouvidos e corações e que produziria frutos, conforme as disposições de acolhimento, indiferença ou rejeição. (cf Mt 13, 1-9). Por acaso, alguma “dona de casa” ficou sem entender a parábola do fermento, dado que conhecia suas propriedades, ao fazer o pão caseiro? Na verdade, Jesus queria dizer aos seus discípulos que eles deviam ser uma presença atuante e transformadora no mundo. Embora seus discípulos constituíssem um “pequeno rebanho”, deveriam agir como o “fermento na massa”. (cf Mt 13,33) Poderia uma pessoa falar com mais simplicidade e profundidade, sobre a Providência Divina, do que Jesus, ao se deparar com a despreocupação dos pássaros que “não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros” e com a beleza dos lírios:“Não trabalham, nem fiam”?(cf Mt 6,25-34)


Ao lado da observação sobre coisas da natureza, Jesus fazia a leitura de atitudes e condutas humanas, individuais e coletivas. com a mesma sabedoria e perspicácia. Fora dele, teria alguém alcançado o significado do “óbulo da viúva pobre”? Conforme Jesus, a doação que ela fez, “duas moedinhas”, representou mais do que a daqueles que oferecem “parte do tinham de sobra”. (cf Lc 21,1-4) Em alguns momentos, as multidões procuravam ouvir Jesus, em razão da sua palavra; em outras oportunidades, ele percebia que o seu interesse era outro: o pão multiplicado que saciava a fome. Na verdade, nesse contexto, com a multiplicação dos pães, Jesus estava fazendo a promessa da Eucaristia. (cf Jo 6, 22-40)


Como Jesus, os cristãos, discípulos missionários, devem estar muito atentos à realidade cotidiana, cabendo-lhes extrair educativas lições de vida, porque nela se encontram sinais concretos da vitalidade do Reino de Deus.

Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE