A mística do futebol
Uma das razões da mística do futebol é que sua linguagem é eminentemente popular. Gastam-se milhões de dólares por ocasião da Copa do Mundo, grande parte da população dos países que sediam os jogos continuam na miséria, mas as justificativas se multiplicam para tais despesas astronômicas. É que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo.
Surge então uma questão: como se posiciona um cientista social perante este fenômeno humano? É que o futebol é uma realidade artístico- estética.
O belo, segundo Tomás de Aquino, é aquilo que agrada à vista, tendo como ponto de partida a vivência da beleza. Há no belo o resplendor da forma.
O futebol apresenta a beleza com os mais variados matizes. Quem bem observa a movimentação dos jogadores em campo, sobretudo em nossos dias com os recursos cada vez mais sofisticados da televisão, nota que há um verdadeiro balé executado com refinada arte. É o rítmo do futebol que atrai, que fascina.
Existe uma harmonia em torno de um objetivo que é fazer chegar a bola até as redes adversárias, mas, até lá, a inteligência do jogador, seu malabarismo, a graça com que toca na esfera que capta todas as atenções é algo verdadeiramente sublime.A partida de futebol vai assumindo no decorrer dos minutos que se escoam evoluções que se assemelham a passos de uma verdadeira epopéia. A tudo isto se acrescente que o futebol arma uma verdadeira disputa entre entes dotados de razão e alimenta a imaginação a qual conduz o assistente aos páramos do delírio. Esta arte executada pelos jogadores tem uma característica que a faz superar as novelas, os filmes, as peças teatrais, ou seja, o ser racional se sente ante algo real.
Não se trata de uma mensagem via ações imaginadas por um artista, mas criada, de fato, por vinte e dois protagonistas de cenas imprevisíveis, mas todas elas dotadas de seqüências de gestos bem combinados, associados, que exprimem perfeição e beleza.
Tudo que acontece numa partida de futebol é irrepetível, é uma situação única. Eis por que quando o artista da bola é genial ele fixa cenas que para sempre ficam incrustradas na memória dos pósteros.
É que uma jogada da mais refinada arte estética produzida por um gênio do futebol é fruto de um juízo prático intuitivo, mas sumamente criativo, só possível a um ser dotado de intelecto, e, no caso, fazendo fulgir um raio ainda mais luminoso desta notável capacidade humana.
Por tudo isto se compreendem as críticas à atual seleção brasileira que deixa de lado um artista da bola como Ronaldinho Gaúcho e opta por um espetáculo de força, sem brilho, visando unicamente a vitória.
Há, então, uma subversão da essência mesma deste esporte, havendo a superação do útil sobre o belo.
É o império do pragmatismo.Quem não se recorda com prazer da equipe de Telê Santana que não ganhou a Copa, mas encantou o mundo?
* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
Fonte: Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Local:Mariana (MG)