Mão de Deus na criação

O Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, com seu gênero literário próprio, revela Deus que irradia seu amor trinitário através da criação que foi desabrochando, progressivamente, no mundo da natureza. No ápice da criação, o homem e a mulher representam a melhor semelhança com Deus, dentre todos os bens que nasceram de seu amor. Por isso, na obra da criação, tudo fala de Deus, em tudo se encontra a marca de sua intervenção, mas, na verdade, o ser humano é a melhor e a maior referência da ação divina. Realmente, o Gênesis diz que assim ele foi criado: “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou.” (Gn 1,26)

Onde encontrar Deus? “Pergunta aos animais e eles te ensinarão, às aves do céu e elas te informarão; fala à terra e ela te instruirá, os peixes do mar te hão de narrar. Com tantos mestres, quem não reconhecerá que tudo isso é obra da mão de Deus? Em sua mão está a alma de todo o ser vivo e o espírito de todo o homem carnal.” (Jó 12, 7-10) O salmista, em sua oração, também a identifica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste.” (Sl 8,4) “Os céus narram a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos. (...) Por toda a terra difundiu-se a sua voz e aos confins do mundo chegou a sua palavra.” (Sl 19,2.5) Muitas passagens da Sagrada Escritura são pródigas, ao falarem de Deus através da criação. Quando não se deixa levar pela auto-suficiência, o ser humano encontra Deus na natureza. Isso acontece quando ele revela uma abertura para a transcendência, ao invés de ensimesmar-se. São Francisco de Assis é uma dessas pessoas que louva a Deus, por tantos dons da natureza, como se vê no belo “Cântico das criaturas”,: “Louvado seja Deus na natureza, Mãe gloriosa e bela da Beleza, (...) Pelo irmão Sol, o mais bondoso, (...) Louvado seja pelas irmãs Estrelas, Pela irmã Lua que derrama o luar, (...) Louvado seja pela preciosa, Bondosa água, irmã útil e bela, Louvado seja Deus na mãe querida, (...) A natureza que fez bela e forte”. As comunidades cristãs, precisamente, porque têm uma abertura para a dimensão eterna da existência, assim cantam a percepção da presença de Deus nessa realidade: “Escondido tu estás no verde das florestas, nas aves em festa, no sol a brilhar, na sombra que abriga, na brisa e na fonte que corre ligeira a cantar.” “Olho em tudo e sempre encontro a ti /estás no céu na terra /onde for/ em tudo que me acontece encontro teu amor/ já não se pode mais deixar de crer no teu amor”.

No mundo das criaturas irracionais, há fenômenos que falam, de uma maneira impressionante, a qualquer pessoa que se coloque numa atitude de investigação. Nesse sentido, o instinto materno e paterno dos animais, fortemente revelado em sua conduta, cerca de cuidados os seus filhotes, providenciando o alimento, e, no caso de algumas espécies, protegendo-os, visivelmente, em algumas situações de perigo. Como não perceber a mão de Deus nessa força do instinto animal? Ao examinar o comportamento das aves migratórias, a mente humana procura encontrar um ser superior; nessa linha, pesquisadores acompanharam o voo de uma espécie de ave, pelo GPS, e chegaram a constatações impressionantes: “os fuselos se dirigiram ao oceano aberto e voaram para o sul através do Pacífico. Eles não pararam em ilhas durante o caminho. Pelo contrário, eles viajaram 11.400 quilômetros em nove dias – o voo contínuo mais longo já registrado.” Como não ver nisso “a obra da mão de Deus?”

Portanto, qualquer pessoa pode perceber, no mundo da natureza, elementos que constituem provas da existência de Deus, como fizeram Aristóteles e Santo Tomás de Aquino que o viram como “Motor Imóvel, Causa Incausada, Ser Necessário, Máxima Perfeição, Organizador Sapientíssimo.” A filosofia e a teodiceia, ciências humanas, ajudam a pessoa a encontrar Deus na natureza, enquanto a teologia cristã, por estar fundamentada na Revelação divina, supõe um ato de fé para se perceber os traços da mão de Deus na obra da criação.


Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE