Mão do homem na criaçãoPor desígnio de Deus, o ser humano participa da criação, intervindo em benefício da natureza e de si mesmo, como ensina o livro do Gênesis:: “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou. E Deus os abençoou e lhe disse: Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão.” (Gn 1,26-28) A superioridade do ser humano sobre qualquer outro ente se reflete em sua capacidade de “dominar”, de “submeter” o que está ao seu redor, graças ao nível de sua inteligência e ao grau de sua vontade. Na verdade, é por sua racionalidade que o homem e a mulher se distinguem dos demais seres criados e, por isso, participam da obra da criação, de forma qualitativa, enquanto imprimem a marca de sua intervenção na natureza, ao longo da história.
De fato, são incontáveis as intervenções humanas que constituem um benefício extraordinário para a humanidade, desde as invenções mais significativos nos períodos da Pedra, do Bronze e do Ferro às inovações mais sofisticadas da atualidade. Sem dúvida, a capacidade de desenvolvimento humano se processou, ao longo dos milênios, de uma maneira benéfica, como se pode constatar na história das civilizações. Com efeito, a mão do homem está visivelmente presente no mundo. Na compreensão da Igreja e da própria ciência, há um infindável campo de investigação, onde se desenvolvem pesquisas plenamente acolhidas, realmente preocupantes e totalmente inaceitáveis. É muito grande o acervo de pesquisas acolhidas pelo pensamento cristão porque seus resultados estão sendo utilizados para o bem da humanidade. Há intervenções humanas que são preocupantes porque têm implicações éticas e efeitos incertos, a exemplo de uma pesquisa recente que criou uma “bactéria em laboratório”. “Para cientistas de todo o mundo, o anúncio da criação pela equipe de John Craig Venter da primeira célula parcialmente sintética, que foi saudado como o primeiro passo em direção à criação artificial da vida, não foi tão revolucionário assim. Os pesquisadores conseguiram criar uma célula viva de bactéria produzida a partir de genoma (conjunto de genes de uma determinada espécie) sintético. A expectativa é que a descoberta possa permitir, por exemplo, a fabricação de bactérias em laboratório. (...) A técnica também poderia ser usada para fins nada nobres, como a criação de organismos patogênicos (causadores de doenças), como o antraz, para o uso em guerras biológicas. Mas cientistas do grupo do Conselho Nacional de Biossegurança, nos Estados Unidos, disseram que a técnica não representa uma ameaça.” Perante essa descoberta, “A Igreja assume posição de interesse e prega existência de regras, mas bispo italiano afirma que fingir ser Deus e parodiar seu poder ‘pode mergulhar o homem na barbárie’ ”. “Autoridades da Igreja Católica disseram nesta sexta-feira (21) que a recente criação de vida artificial pode ser uma descoberta positiva, contanto que bem utilizada. No entanto, o Vaticano advertiu os cientistas de que apenas Deus pode criar vida.” A esse respeito desse assunto, fica a pergunta: trata-se de “Conquista científica ou presunção criadora?” Segundo a Igreja e segmentos da ciência, há pesquisas inaceitáveis, sob o aspecto moral e ético, porque produzem resultados que ferem a própria ordem da natureza, como a clonagem humana e o uso de células tronco embrionárias porque nelas, reconhecidamente, a vida é objeto de pura manipulação.
Em qualquer situação, o cientista deve ter consciência dos limites da investigação de sua mente e da pesquisa de sua mão, frente a essa realidade tão profunda - a vida humana. A mão de Deus continua atuando, constantemente, no universo e é necessário que a mão do homem continue participando da obra da criação, mas sabendo “que apenas Deus pode criar vida.”
Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE