Maria na vida da IgrejaO nome já o diz, o cristianismo tem sua centralidade em Cristo. Os cristãos dele herdaram o seu nome, como atesta o livro dos Atos dos Apóstolos: “Em Antioquia, os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de ‘cristãos’.” (At 11,26) Assim, na vida da Igreja, tudo gira em torno de Cristo, de acordo com o ensinamento de São Paulo: “Aí não se faz mais distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, porque agora o que conta é Cristo, que é tudo e está em todos.” (Cl 3,11) A doutrina católica segue essa verdade porque Cristo é “tudo em todos”.
O plano de Deus, no processo de humanização do Verbo, dispensou a participação masculina no ato de sua concepção, mas não dispensou a participação feminina, ao escolher uma virgem (cf Is 7,14) para exercer a maternidade divina e Maria, com o seu sim (cf Lc 1,38), contribui para o resgate da humanidade pecadora. Dessa maneira, pois, Maria entra na história da salvação e faz parte da vida da Igreja.
Bíblica e doutrinariamente, o lugar de Maria está situado, de forma adequada, no plano de Deus e, por isso, ela se encontra presente na história da salvação. “Maria pertence às três fases da história da salvação: ao tempo que precede Cristo, ao período da sua vida terrestre e ao tempo depois de Cristo.” Vista na leitura do tempo, Maria precede Cristo, “Uma vez que ela é a aurora que precede e revela o Sol de justiça, que é Jesus Cristo, ela deve ser conhecida e descoberta, a fim de que Jesus Cristo o seja também”. Enquanto Cristo peregrinava na Palestina, anunciando a Boa Nova, Maria ia ao seu encontro, na condição de sua discípula (cf Mc 3, 31-35) e age como intercessora, como ocorreu nas bodas de Caná da Galileia. (cf Jo, 2, 1-11) Após a ascensão de Cristo, no início da era apostólica, “Maria está presente desde os primeiros passos da Igreja que, ao redor dos Doze apóstolos, nasce em Jerusalém onde ela com eles viveu os acontecimentos da Paixão de seu Filho, da sua Ressurreição, da sua Ascenção (sic) e depois do Primeiro Pentecostes. Os Doze e os primeiros discípulos começaram por se reunir no Cenáculo e posteriormente em casa de um ou outro em Jerusalém, e Maria rezava com eles e alimentava a sua fé, esperança e caridade como uma mãe alimenta os filhos.” A doutrina do Concílio Vaticano II proclama o lugar de Maria na vida da Igreja: “a Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, que é denominada sua a Charta magna , cujo tema central é a doutrina sobre a Igreja Católica, nos seus 8 capítulos explicita toda auto-compreensão da Igreja. Essa inicia falando da Igreja, em geral, e aos poucos especifica cada setor começando pela hierarquia, depois os leigos , os religiosos, a vocação de todos os batizados e culmina com a exposição sobre Maria: apresentada na sua relação com a Igreja, nos interessa acentuar a importância do capítulo VIII, dedicado a doutrina sobre a Beata Virgem Maria Mãe de Deus relacionada no mistério de Cristo e da Igreja que é a síntese bem feita e articulada da doutrina mariana. (...) A principal novidade mariológica do Concílio Vaticano II foi inserir Maria no arco da História da salvação, especialmente no mistério de Cristo e da Igreja.”
Portanto, teológica e pastoralmente, o cultivo da espiritualidade mariana converge para o mistério de Cristo e conduz à sua centralidade, ao invés de empanar a sua manifestação. A tradição católica, desde os primeiros tempos, confirma a natureza dessa espiritualidade que ocupa um lugar privilegiado na Igreja Católica. O povo católico enriquece a sua vida ao encontrar em Maria, além de qualidades humanas de elevado valor, virtudes excelsas, na linha da sensibilidade, solidariedade e caridade, como demonstrou em sua ida e permanência na casa de Isabel (cf Lc 1,39-56).
Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE